Mais que nada.

Goetz: Acontece, porém, que a felicidade é apenas um meio. Que pretendeis fazer depois?
A Mulher: Felicidade? Mas seria preciso primeiro que a gente tivesse.
Goetz: Ides tê-la, não duvideis. Mas que uso fareis dela?
A Mulher: Ainda não pensamos. Nem mesmo sabemos o que é.

Pois é, pois é, pois é. A gente pede pelas coisas, quase implora, depois não sabe direito o que fazer com elas.
Porque, e reside aí a grande tolice humana, a gente até pode se iludir achando que sabe o que esperar das coisas fantásticas que deseja. Mas na real a gente não tem a menor idéia do que fazer com elas depois que elas passam a de fato fazer parte da nossa vida.
E não se trata de futilidade, não dessa vez. Não estou falando daquele tipo de coisa que a gente consegue depois de muito querer e automaticamente cansa.  Disso eu entendo bem, podia até escrever um tratado sobre como se enjoa daquilo que mais se quis.
É fácil. Você de tanto querer cria expectativas inatingíveis para o objeto do seu desejo, e quando o alcança fica profundamente decepcionado por não vê-las atendidas.
Mas é de outro tipo de coisa que eu estou falando. Um tipo de coisa que eu não entendo, diga-se de passagem.
Aquelas vontades nada práticas, muito mais do que ambições. Como a felicidade, por exemplo. Você não pode esperar nada da felicidade, porque não tem como saber o que ela pode te trazer. E mesmo sem saber você precisa dela, desesperadamente. E quando consegue um pouquinho, quer mais e mais e mais e continua sempre querendo.
O problema é que você nunca vai conseguir tudo que a felicidade pode te oferecer. Porque você não vai aguentar, se conseguir.
Você vai se perder de você se der de cara com a felicidade, simples assim.
Porque ela nunca vem sozinha. Ela se divide em três, três verbos, e você só vai conseguir respirar enquanto conhecer as duas primeiras. Depois da terceira você vai aprender que felicidade demais tira um pedaço de você e não devolve.
São os verbos: “ser”, “estar”, “pertencer’.
Porque a primeira felicidade que a gente pode conhecer é aquela de ser quem se é. Dá trabalho, mas é a mais natural. Você não precisa pedir por ela, um dia ela vem naturalmente.
Mas não basta saber ser. Depois disso você tem que aprender a aproveitar o lugar onde está. E isso exige muito esforço, porque eu não falo simplesmente de lugar físico, eu falo do ponto da vida em que você se encontra.
“Não precisa se preocupar”, diz a felicidade de ser, “pouco importa de onde se veio nem pra onde se vai, você já sabe como ir porque já sabe quem é”.
Então você acredita nisso e de fato, pouco tempo depois começa a perceber os traços da felicidade de estar se aproximando. Logo ela chega, e parece que tudo finalmente se encaixou e que nada mais é necessário além dessas felicidades, que lhe cabem tão bem que você pode carregá-las uma em cada ombro sem nem sentir o peso delas.
Só que isso não dura muito. Elas começam a sussurar no seu ouvido que falta uma outra, e você finge que não escuta porque não acha que isso seja possível. Mas elas insistem, e dizem que cabe mais um pouco, e pedem pra você deixar ela fazer parte da brincadeira.
Você acaba deixando, claro, e o que elas te trazem é o terceiro verbo, o “pertencer”.
Pertencer parece apenas mais uma felicidade inocente à princípio. É de tamanha delicadeza que você dá dez mil vezes mais atenção à ela que às duas anteriores.
Até você percebe que não lembra como era a vida antes de tomar esse cuidado todo com algo. Percebe que essa felicidade exige de você um negócio que você desconhece por completo: responsabilidade.
Porque antes eram os verbos no seus ombros que tomavam conta de você, agora é você quem precisa se vigiar, porque esse terceiro é tão frágil que precisa ficar num lugar mais protegido que os ombros. Dentro de você. Primeiro no peito, depois por todo o corpo, e você se pergunta como um negócio tão delicado se espalhou tanto e é tão pesado assim a ponto de não te deixar inalar todo o ar que você precisa.
E aí entra o grande truque da felicidade de pertencer. Você não espera nada daquilo, então exige tudo de si mesmo, o que nunca é suficiente, pois tudo que você poderia dar está sendo consumido.
A felicidade é egoísta quando se pertence à alguém. Não se trata da necessidade da posse ser recíproca, o que mata é a agonia de não sentir-se possuído o tempo todo.
Vai entender.

Catarina: Então é assim, meu pequeno: o que te pertence é o que tomas?
Goetz: Somente
Catarina: Então, além de tua mansão e de teus domínios, possuis um outro tesouro inestimável, do qual nem mesmo pareces te aperceber.
Goetz: Que tesouro?
Catarina: Eu, querido. Eu. Não me tomaste à força? Que pretendes fazer de mim? Decide.
(The Devil and The Good Lord -- Jean-Paul Sartre)


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