A encomenda

DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO:
- Me encomendaram um texto.
- Legal.
- Só tem um detalhe: texto confessional.
- Vai escrever sobre o quê?
- Queria escrever uma história de amor.
- Tu sempre quer escrever uma história de amor.
- Mas não queria confessar ser confessional.
- Por quê?
- Sei lá.Podem botar olho grande na gente.
- Melhor pensar em outra coisa.
- Não existe outra coisa.


DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO II:

- Me encomendaram um texto.
- Legal.
- Queria escrever uma história de amor.
- Tu sempre quer escrever uma história de amor.
- Mas meus finais são tristes.
- E o que tem isso?
- O que tem que dessa vez tem que ser confessional.
- E daí?
- Ué, por acaso nosso final vai ser triste?
- Ai, Jesus! Vem cá e me dá um beijo.


LISTA DE COISAS QUE FAÇO ANTES DE COMEÇAR A FAZER AQUILO QUE REALMENTE TENHO QUE FAZER:

Estágio inicial - pressão leve
1- Vejo os seriados na TV.
2- Jogo Campo Minado.
3- Desenho alguma coisa.
4- Procuro um chocolate.
5- Converso um pouquinho com o cachorro.
6- Invento desculpas para mim mesma.

Estágio intermediário - pressão moderada
7- Vejo programas de fofoca na TV.
8- Jogo Campo Minado.
9- Rôo a unha.
10- Como bolachas recheadas.
11- Me tranco no banheiro e deixo o chuveiro aberto.
12- Falo para as outras pessoas que estou adiantada.

Estágio final ou terminal - pressão a fu
13- Vejo a previsão do tempo na TV.
14- Bato o recorde do Campo Minado.
15- Me descabelo.
16- Como uma caixa inteira de BIS.
17 - Choro.
18- Escrevo uma lista de coisas que faço antes de começar a fazer o que realmente tenho que fazer.

DIÁLOGO REAL:
- Tu está jogando Campo Minado?
- Estou batendo meu recorde!

DIÁLOGO REAL DENTRO DA MINHA CABEÇA:
Por que não escrevo outra coisa? Não existe outra coisa.Bomba.Morte.Morte, posso escrever sobre morte.Bomba.Falaram pra eu escrever uma carta.Carta o final já vem pronto.Beijo carinhoso, com amor, bomba, um beijão.Minha chance de escrever um final feliz.

DIÁLOGO REAL REQUENTADO:
- Tu está jogando Campo Minado?
- Estou batendo meu recorde!
- Deve ser o recorde mundial do Campo Minado.
- Perdi.

DIÁLOGO REAL DENTRO DA MINHA CABEÇA:
Ela, deitada na cama escreve num caderno com uma caneta, mas a caneta falha.Por isso que eu gosto de lápis.Caneta não escreve de cabeça pra cima.Mas depende da caneta.Caneta de astronauta escreve.Vi no Seinfeld.

NOTA: a realidade dá um banho na ficção.E então começo a pensar no que devo fazer.

Viver a morte é cruel.Apago.Viver a morte é uma contradição.Eu já desconfiava antes de ela aparecer.Até que chegou sem aviso, para levar uma jovem senhora de 47 anos.Apago.Mudou tudo.

" Quando minha outra mãe ainda estava de cama,falando pouco, totalmente entregue à doença,recebeu a visita de um padre para um último sacramento.A princípio achei maldade: era enterrá-la antes da hora.Explicara ele depois que extrema - unção é um sacramento para enfermos, um sacramento de cura, e passa longe de decreto de morte.E o padre parecia saber o que estava fazendo.Fitou minha outra mãe, para quem respirar era exaustivo.Passou o óleo na testa dela, sussurou um monte de rezas antigas e terminou: "coragem".

É preciso muita para morrer.Talvez eu não, por falta.Mas minha outra mãe resistiu por dias.No dia em que minha mãe morreu era dia de Natal.Eu fecho os olhos para lembrar o que jamais vou esquecer.Quando recebi a notícia num dia comumente cheio de vida quanto o Natal, um meteoro atingiu meu mundo e me arrancou um pedaço."





DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO III:
- O que tu está escrevendo?
- O texto que te falei.
- É sobre o quê?
- Depois tu lê.
- É confessional?
- É.
- Tem eu?
- No início e no fim.
- O meio é sempre o que menos importa.

" Ela estava lá, deitada usando sua roupa branca.A roupa que ela agora nem precisava mais.Vamos enterrar.O caixão cheio de flores.E de palavras não ditas."

DIÁLOGO INVENTADO IV:
- Porque tu está chorando?
- Eu não estou chorando.
- Ah sim, sei.Diz aí.
- Estou com medo.
- Tá tudo bem querida.Dorme aqui comigo, vai.
- Fica comigo?

" Depois que minha outra mãe morreu, por vezes me pego sentindo pavor que a morte chegue outra vez.Por isso dou voz a todas as minhas palavras e ação as minhas vontades.E vejo as coisas todas com olhos de câmera fotográfica, para guardar os detalhes na memória como uma simples lembrança - algo ao mesmo tempo inconcebível e iminente, ainda que demore quinze anos.E choro só de pensar e não quero mais falar sobre isso."

DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO V:
- Cuidado para não ficar melodramático.
- Mas o que posso fazer se minha história é um melodrama??

DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO VI:
- Acabou?
- Quase.
- Está escrevendo sobre o quê?
- Sobre a morte.
- E vai me matar no começo ou no final?
- Ai, credo!Vem cá e me dá um beijo.

 E A CARTA:
Por favor, fique comigo.Fique comigo até o dia da minha morte.Até porque, sem você, a morte vira redundância.


Leave a Reply