Do nosso amor.

Naquela noite, o vento soprou como nunca.Os vidros das janelas bateram e o céu ficou mais escuro do que a noite.
As corujas fecharam os olhos, os morcegos prenderam a respiração e as sinaleiras piscaram amarelo madrugada afora.Só na minha vizinhança, meia dúzia de gatos morreram atropelados por motoristas sonâmbulos.
'Você come todo um dicionário de palavras de amor no café da manhã, mas não adianta falar bonito se é em vão'
Eu não consigo dormir.
Viro na cama, coloco o travesseiro em cima da cabeça, aperto os olhos, borro o rímel, apago a luz, acendo vela, abaixo o som e soluço alto.Arranho o lençol, chamo seu nome baixinho, seu nome mil vezes, vem, mas você não escuta.Você nunca vem.Dizem que sim, mas não, sempre não. Você come todo um dicionário de palavras de amor no café da manhã, mas não adianta falar bonito se é em vão.
Naquela noite, os pássaros migraram e os grilos falantes perderam a voz.O mar cresceu em ondas de 9 metros, maremoto, tsunami.Os peixes boiaram, a areia imergiu.Esse oceano em espiral, como se alguém tivesse aberto o ralo do planeta, estava dentro da minha cabeça.
Minhas pálpebras pesam. Minhas mãos tremem.E eu que já tremi de nervoso, de emoção, de um amor que de tão forte se faz indizível, naquela noite, tremi de ódio, um ódio tão ardente que, mais calma admito, só consome os apaixonados.
Naquela noite, as estrelas uma a uma caíram do céu.Os corações vermelhos da cortina do box escorregaram até o chão.A chuva lavou os prédios.Meus lábios apontam para os pés.Minhas costas se expressam em curva.Meus olhos, tristes, checam os saltos lentos, muito lentos, dos ponteiros do relógio.Incrível como o tempo passa a cada hora num compasso - desconfio de que quem manda é você.
Prometo para mim mesma que nunca mais.Planejo quebrar pratos, juntar minhas coisas e me aninhar numa cama mais macia. Naquela noite, tudo que fiz foi tomar um banho quente, duas neosaldinas, entrar no meu melhor vestido e encontrar você num bar de cadeiras de plástico.
Quando o dia amanheceu - céu azul, sol redondo, nuvens de carneirinho, pessoas rumo ao trabalho e carros engarrafados pela cidade - mal pude acreditar.Era só mais um dia como outros tantos, ontem ou amanhã.A lua e as estrelas, as árvores, os peixes e as tábuas do chão, só eles, além de nós, sabem como doem as diferenças do nosso amor.


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