Baita de um injusto!

Quando eu era guriazinha pequena, de canelas finas e cabelos em maria - chiquinha, houve esse dia em que desci no consultório e meu pai me disse que eu estava com uma cárie, a minha primeira cárie.Com aquela voz da professora do Charlie Brown, meu pai, nos preparativos para a obturação, disse para eu levantar o braço esquerdo se surgisse algum problema.Assim que ele ligou aquele motor, levantei o braço.E pedi pra ir ao banheiro. Na minha lembrança - cruel - meu pai fez aquele "aff" e riu de mim.Hoje, tenho a certeza que ele não fez isso - pelo menos a parte das gargalhadas e o dedo apontando pro meu rosto.Chegando no banheiro, nada.Foi ali que aprendi o que é sentir nervoso.E que nosso organismo faz questão de evidenciar isso sempre que pode.
Na infância, era vontade de ir ao banheiro.Adulta, meu coração acelera e eu tremo.Dá no mesmo que colar um adesivo na minha testa: "essa situação/você-me-deixa-nervosa", ou " preciso desesperadamente desse emprego" ou ainda "estou apaixonada por você". Não curto. Como muitos, prefiro (ou preferiria) guardar certas informações no mais absoluto sigilo.
'Sabe o corpo humano? Baita de um injusto.FDP meesmo...ou senão, não haveria sinais tão diferentes para um coisa só.Todos tinham que ter o mesmo sintoma de nervoso, afinal de contas, não é certo que uma pessoa , no caso eu, trema da cabeça aos pés, enquanto outram sintam apenas taquicardia - ninguém diz! E as duas coisas juntas...tão querendo me derrubar!
Simpatizo de imediato com quem assume sua condição de nervoso.Presto atenção.Sou capaz até de oferecer chá de camomila.Dou a mão.Se bobear, rola até um cafuné.Péssima estratégia é tentar negar o óbvio. Já paguei esse mico: botei a culpa da tremedeira no frio.Fi-As.Co. Fica ainda mais patético. Complica quando chega o cafezinho.Nunca ofereça um café para uma pessoa nervosa: a xícara treme sobre o pires, e o nervosismo dobra de tamanho a cada tilintar da louça.Vejo, em uma nuvem, Sílvio Santos dizer para suas colegas de trabalho, emocionadas quando chamadas ao corredor do "Topa tudo por dinheiro": "Não trema, não trema!".Constrangimento máximo.No palco, segurar a folha de papel. Na mesa de bar, levantar o copo.Na entrevista de emprego, enrolar a língua.Em uma discussão, perder a voz. No primeiro encontro, falar demias.Ou de menos. Ou comer as últimas sílabas.
'Sabe o corpo humano? Baita de um injusto.FDP meesmo...ou senão, não haveria sinais tão diferentes para um coisa só.Todos tinham que ter o mesmo sintoma de nervoso, afinal de contas, não é certo que uma pessoa , no caso eu, trema da cabeça aos pés, enquanto outram sintam apenas taquicardia - ninguém nem diz! E as duas coisas juntas...tão querendo me derrubar!
Em minha breve pesquisa que resultou nesse texto (sim, as vezes do nada surgem pesquisas ou, por exemplo, eu jamais saberia sobre os nutrientes contidos em um tomate), conversei com pessoas que tremem, gaguejam, esquecem palavras e ficam abobadas.Esta última está também entre as minhas especialidades: justamente quando eu mais quero agradar ou parecer inteligente, é que idiotizo, esqueço o final da piada, falo frases desconexas.Até já cheguei a cometer indelicadezas sem intenção.Por essas e outras é que sempre preferi ser conquistada do que conquistar.
Sobre as dores e as delícias de cada sinal, surgiram ponderações interessantes: a tremedeira é de chegada-dura apenas alguns minutos-, enquanto as marcas de suor na camisa permanecem a noite inteira.E transpirar em algumas épocas aqui no Rio Grande, passa, de longe, o recibo de "estou muito nervoso".A tréplica: ainda mais quando você está em uma sala em que o ar condicionado atinge a temperatura do Polar Ártico.
De acordo com a teoria da evolução das espécies, nossos descendentes nascerão sem os sisos e não darão pinta em momentos de aperto.Até lá, toda a minha solidariedade aos que tremem, transpiram, ruborizam, gaguejam, têm vontade de ir ao banheiro, exibem placas vermelhas no pescoço e bolhas de herpes nos lábios.
Ainda acho que pior, mesmo, é não sentir nada.





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