Análises [21]

Percebi que trago comigo uma inexplicável tendência para tudo que dê errado. Um magnetismo caótico que atrai toda sorte de eventos absurdos.Às vezes acho que esses eventos não existem aqui. São daqueles mundos paralelos dos quais falamos outro dia, lá do outro lado do Equador, onde é mais quente e mais sujo e as pessoas – como as ruas – são mais desorganizadas.
Ainda assim, ei-los. Os eventos. A incômoda presença invisível que denuncia outra presença tão estrangeira quanto: a sua.
Tem dias em que me sinto deslocada no mundo e a ordem das coisas é sempre igual.
Me imagina falando:Posso te fazer uma pergunta? Posso te contar o que imagino?
Você chega nos lugares. Sem mala, sem nada, sem um pingo de juízo,porque não sabe o que ele come. Sem dinheiro e sem entender direito o que foi fazer ali. Acaba numa cama, apoiado nos cotovelos, olhando sem enxergar a paisagem estática pela janela, enquanto ouve música sem escutar e se dissolve em lágrimas. Em momento algum você questiona exatamente o que te levou até tal situação de ocupar a boca com chicletes porque não há com quem conversar.
Não que estar só seja incômodo, nem o silêncio em si (apesar de que, não fosse a música que você sequer se dá ao trabalho de distinguir qual é, você com certeza enlouqueceria).
É essa a eterna angústia humana por motivo. Todo mundo te pergunta o que você está fazendo, e num dado momento, quando absolutamente ninguém está à vista para te fazer companhia, você se sente um tanto estúpido por nunca ter dado uma resposta a essa pergunta na qual nunca viu sentido. E então a pergunta ressurge dentro de você, inesperada.
Talvez alguns tenham insistido tanto nela porque se importam. Porque se preocupam com você mais do que você mesmo seria capaz (talvez se preocupem justamente por saber que você não o faz). Talvez essa ânsia de saber os porquês seja fruto de um sentimento de preservação, um instinto que tenta impedir que se perca aquilo que é querido. Talvez seja verdade que estamos todos ligados uns aos outros e por isso então nos protegemos. Para não nos perdermos de nós mesmos – o que seria meio egoísta, mas não deixaria de ser uma preocupação genuína.
Mas esse questionamento,eu imagino que dure o tempo de uma tragada,caso você tenha o vício. Como se ao inalar tabaco você inalasse consciência, mas a exorcizasse em forma de fumaça para retornar ao seu estágio inicial de dúvida.
Acontece que para você já não faz diferença. Nada te prende a lugar nenhum há muito tempo. Desde que haja meios para sustentar teus vícios, qualquer lugar é sua casa. Por dois anos ou dois dinheiros, tanto faz. Não te interessa a ameaça do amanhã. Você se sente seguro, mesmo se conhecendo o bastante para saber que muito provavelmente algo dará errado. É como se você tivesse preguiça de constatar o óbvio, por isso habita uma zona particular de delírio e apenas flutua entre eventos aleatórios.
Não, não é isso.
Há um tênue limite entre a coragem e a estupidez, e sua missão de vida parece ser testá-lo a cada instante. Alguns de nós nascemos pra isso. Para ignorar as causas e conhecer a fundo os efeitos, tornando-se dessa maneira especialistas em consequências. Assim, por puro anarquismo. Eu me sinto em casa falando sobre o assunto.
O mundo te pertence , quando você se permite conquistá-lo. E a hora que você parar, eu sei que será porque você quer – e não porque precisa.


(em 19/06/2010)


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