Análises [23]

Estive em Canela no final de semana.E como não poderia deixar de ser,me sentei por um tempo na Catedral,pra sentir aquela sensação de estar em casa novamente.É realmente muito estranho que alguém como eu,cética,científica e totalmente descrente, possa sentir-se reconfortada dentro de uma igreja.Mas é assim que acontece sempre que volto.
As impressões que tenho sobre a igreja da minha cidade resumem também as impressões sobre a minha vida. Estando outra vez aqui dentro e revendo tudo agora, parece-me claro sempre terem existido sinais de uma potencialmente devastadora falta de congruência entre meu 'eu' interno e meu 'eu' externo.O 'eu' externo é 'forte' e 'independente' (especialmente comparando-se com as expectativas sociais de como as mulheres devem ser).O 'eu' interno é um mar de dúvidas e auto-acusações.Houve um episódio em meus tempos de adolescência que logo tratei de "esquecer", contudo hoje, aqui onde aconteceu, lembro muito bem.Um domingo durante a missa,me senti de repente compelida a fugir da igreja.A pompa, o cheiro e a formalidade do ritual provocaram em mim, naquele dia, um suor frio, desespero e náusea: era a minha primeira crise de ansiedade.O que estava acontecendo comigo? lembro que me perguntei,me agarrando ao banco à minha frente, para não cair, em ondas de tontura.
Parece que levei uma vida inteira para reunir forças para sair da igreja.Sair daqui,hoje avalio, foi um símbolo de uma saída maior, uma premonição de que os rituais do catolicismo nem sempre me serviriam de refúgio.Mas será que existia realmente alguma coisa que pudesse me abrigar?
Posterguei analisar esse ponto por muitos anos.No futuro imediato, estendia-se à minha frente o trabalho de reconstituição das bases primitivas da crença em mim mesma.Parece estranho que uma menina privilegiada, com um bom pai e uma infância perfeitamente adequada, fosse desenvolver uma veia de autodesprezo tão aguda e profunda. No entanto foi assim que eu cresci.Duvidando da minha capacidade.
Angustiada com a confusão comum a tantas mulheres contemporâneas,por muito tempo me senti incapaz de reconhecer o terreno que pisava.Durante todos aqueles anos fazendo as coisas "certas", fazendo faculdade, casada, não trabalhando, tendo filhos, criando-os e depois recomeçando lentamente a trabalhar enquanto eles cresciam - atravessei tudo isso sob um estigma fundamental: o conflito.Enquanto os parentes me elogiavam, demonstrando sua aprovação à minha aparente aceitação de meu "papel" no mundo, durante todos aqueles anos, num tipo peculiar de agir conhecido somente pelas mulheres, eu ocultei de mim mesma a pessoa que eu era.
Hoje com tudo perdido ou tudo transformado, eu venho aqui outra vez para me sentir estranhamente em casa.Agradeço pelos filhos, pelas pessoas fundamentais, as coisas boas e pela vida posta em ruínas, para que finalmente se ache o caminho, é o que dizem.Começo sim a conversa como a moça do livro, dizendo "oi Deus,queria dizer que admiro muito o seu trabalho..."porque não sei como fazer essas coisas.
Agradeço, e só;mas ainda tenho tempo para um pedido.E assim, com as lágrimas rolando pelos olhos, eu só peço para não chorar mais.


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