Análises [25]


Eu não durmo bem. Nunca dormi. De acordo com meu pai, eu não dormi muito ao longo de toda minha primeira infância. Ele ia apagar a luz do quarto por volta das 20h. Eu ficava uns 15 minutos olhando pro escuro, depois levantava e, com todo cuidado do mundo – o que, pra uma pessoa desastrada como eu, exige um esforço que vocês nem imaginam -, dava passos cujo som por sorte era abafado pelo carpete até a beira da escada e ficava lá ouvindo o que quer que fosse que passava na tv ligada na sala. Isso já faz muito tempo, eu ainda morava na minha casa lá em Canela.
Mas não importa há quanto tempo foi. A questão é que esse acabou virando um dos melhores exercícios de criatividade que eu já tive acesso. Tem muito filme que eu nunca vi, mas imaginei todinho, só pelo som. Ou seja, ao invés de sonhar, eu me ocupava criando imagens e completando os diálogos que não ouvia inteiros.
Nos tempos da arquitetura,o silêncio tomava conta da casa enquanto só eu estava acordada, debruçada sobre a mesa de desenho com a fiel companhia do chimarrão e da caixa de lápis de cor.
E então,acontece que até hoje eu sofro com essa insônia crônica. Eu durmo uma média de 4h a 5h por dia, quando muito e uma série de variáveis interfere nisso. Às vezes me ligam pra falar de trabalho a madrugada toda (vamos dispensar as piadas derivadas da óbvia interpretação maliciosa que essa declaração implica). Às vezes me bate aquela necessidade maluca de escrever o mundo no meu caderninho.Às vezes eu tenho crises de choro de proporções homéricas que tornam impossível o ato de dormir. Muitas vezes eu esqueço que sou uma cidadã responsável que tem que acordar cedo no dia seguinte e saio no meio da semana.Tem dias em que o Cassiano pede pra dormir comigo e tem dias que eu faço a mesma coisa.E também tem o povo que me manda mensagem no meio da noite,chorando as mazelas da vida ou pedindo aconselhamento amoroso porque né, sabe que pode contar no mínimo com o meu deboche,mas ainda assim,com a minha sinceridade.No fim das contas, o grande lance é que eu não consigo desligar meu cérebro, mesmo quando nenhuma dessas coisas acontece.
A diferença entre hoje e quando eu era criança – fora que eu cresci uns bons 30 centímetros(óbvio que eu não ia perder a oportunidade de inserir um comentário tosco e desnecessário) – é que hoje em dia eu tenho um computador no meu quarto, e não tenho um horário pra dormir. Mas, talvez por força do hábito, eu ignoro esses dados e passo uma parte da noite ouvindo música no fone e olhando pra parede. A música serve como uma trilha sonora que me ajuda a desenvolver uma história qualquer, que eu escrevo só na minha cabeça e fico ajustando as cenas até que eu eventualmente durma – aí o subconsciente se encarrega de levar a história adiante. Às vezes leva por um caminho totalmente oposto do que eu havia planejado, mas acho que a beleza das melhores histórias consiste justamente no fato delas tomarem vida própria, e se sobreporem as vontades do autor.
Aí quando eu acordo, tento lembrar meu sonho e reconstruir a história completa. Enquanto tomo meu ligeiro café,passo a limpo os resíduos que minha memória preservou, e durante o banho eu seleciono as melhores partes, como se guardasse num compartimento qualquer pra poder retomar à noite.
Claro que até a noite eu já esqueci quase tudo e tenho que começar do zero. Mas a vantagem disso é que pelo menos assim meu cérebro não fica viciado. É essa constante renovação que torna válido o exercício criativo.
Ou era.
Porque de uns tempos pra cá, meus sonhos – e as histórias que os precedem  – têm sido bem repetitivos. Todos giram em torno de um mesmo tema. E aqui cabe explicar o porque de eu não ignorar mais meu celular quando ele toca no meio da madrugada: as mensagens que eu recebo nesses horários absurdos são o combustível de quase todos os meus enredos,além do empirismo.E isso pode ser uma coisa muito ruim, porque como eu acabei de falar, o exercício só se torna válido a partir do momento em que os temas são ilimitados e sempre uma surpresa. Penso que isso pode realmente ser algo negativo, porque eu vivo de criatividade e tenho sido exaustivamente repetitiva em toda minha produção desde então...mas me dou conta que isso não quer dizer que chegue a ser uma coisa ruim. Muito pelo contrário. O que eu perdi em quantidade, ganhei em qualidade. Consistência é uma coisa muito rara para quem sente-se tão inconstante, e conseguir se concentrar em algo ou alguém,é algo inédito muitas vezes. Nem no auge das minhas obsessões românticas eu consegui manter o foco, e agora eu não consigo perdê-lo. Nunca. Nem nos estados mais alterados da mente eu me disperso mais.
Aí as pequenas fantasias e ensaios de contos se tornaram insuficientes. A situação se tornou incômoda, porque contamina todo o meu dia, interfere no meu trabalho, atrapalha a organização caótica que é a estrutura de tudo que eu faço. There’s method in madness, já diria Shakespeare, então eu perdi a base do meu modus operandi no momento em que tudo convergia para um mesmo ponto.
Por isso a situação se tornou insustentável. E eu comecei a me consumir buscando saídas. E só encontrei uma.
Tenho um amigo que tem uma tatuagem que diz “dream is destiny”. Então, como alguns de vocês devem saber (ou não), é uma frase de um filme – Waking Life -, que basicamente trata dessa zona indefinida entre sonho e realidade que eu acabei de descrever aqui e na qual eu tenho vivido. Bom, tem uma outra frase desse filme que diz o seguinte:
“The trick is to combine your waking rational abilities with the infinite possibilities of your dreams… cause if you can do that, you can do anything”
Então, long story short (bom, não tão short assim), daqui a bem poucas horas eu vou levantar, começar tudo de novo e tentar provar que toda essa teoria que eu escrevo a respeito de quase tudo, não passa de mera verdade.
See you there.


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