Análises [26]

Às quinze pras oito, em ponto, na esquina, grande ou pequeno, sozinho, branco, preto, marronzinho ou malhado, 'de marca' ou não, o cachorro está amarrado em frente a entrada da padaria.A coleira está presa na grade, com um nó.O dono não vejo, mas está comprando meia dúzia de cacetinhos.
Olho para o cachorro quando passo.E o cachorro olha pra mim.Toda vez que um bicho olha pra mim por mais de três segundos, fico imaginando o que será que ele quer me dizer.É típico de algumas pessoas falar uma coisa quando na verdade quer dizer outra.Já cachorro, se pudesse falar, abriria o jogo na certa.
Aquele cachorro parado na porta da padaria é uma metáfora que me persegue a tempos e que se renova a cada um que espera o dono voltar.Entre eles, há o que se conforma com a situação, embora não a entenda.Não há outra solução senão esperar.Sentado.Boceja.Se coça.Ao deitar, apoia a cabeça nas patas dianteiras e tira um cochilo,despertando nos passantes compaixão, e, variando com o porte ou o grau de periculosidade envolvidos, ganha até um carinho que lhe faz um bem enorme.
Tem também o cachorro que derrama seu sentimento na calçada.Sofre.E faz questão de deixar isso muito claro, puxando a coleira ao máximo, a ponto de se enforcar.Como quem dá uma bronca no dono, ele late sem parar.Uiva apontando o focinho para o alto.
E há por fim, o cachorro que não dorme tampouco late.Ele fica de pé, andando de um lado para o outro ou até onde a coleira lhe permite.Levanta as orelhas, estica-se, mira com olhos atentos o interior da loja, os corredores e a fila.Tem medo de ser abandonado e está à espera do dono, em quem confia e a quem receberá com alegria, pulos e lambidas.É com esse cachorro amarrado na frente da padaria, malhado e pequeno, que me identifico.


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