Análises [27]

"Aquele que deseja continuamente "elevar-se", deve esperar um dia pela vertigem (...) a vertigem não é o medo de cair, é outra coisa.É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados." 

Milan Kundera


aí que quando tudo se encaixa como se a vida fosse um grande quebra-cabeça, as peças deixam de ter um sentido.tudo que a gente ama, da forma como a gente conhece pelo menos, atinge seu limite quando faz sentido demais.a realidade do presente flutua na beira do abismo do pra sempre.vejo o esquecimento como o paraíso da eternidade e a maldição dos detalhes.mas, tudo que é perfeito se consome.e dura pouco, uma vez que a perfeição só pode mesmo ser bonita quando acaba.enquanto ela dura, é exagerada e irreal demais para ser apreciada.a gente passa por cima da perfeição dos nossos dias todos os dias, só que não se dá conta disso.por isso que a busca da perfeição necessita de um rompimento, porque a parte mais bonita de tudo é o exato instante que se segue à destruição do perfeito, quando ele já está fora do alcance da rotina o suficiente para não ser estragado pela realidade mas ainda é recente demais para ser deixado para trás ou moído pelo tempo.mas se você se prende ao fascínio dos momentos,ela se torna um estilo.é a aliteração dos relacionamentos, sem se preocupar com a rima dos finais felizes.só que um estilo não deixa de ser uma forma de vício, um parasita que se infiltra em você na forma de hábito.a gente mete na cabeça que esgotou todas as formas de perfeição possíveis e que sobraram só as marcas que elas deixaram, em forma de cicatrizes.e uma cicatriz nada mais é que um ranço de lembrança de uma dor que já passou.ou não.quando a dor passa, o medo do acidente acontecer de novo também passa.estamos de novo prontos pra próxima.e sempre tem uma próxima.porque é sempre sem querer que a gente se machuca.é sempre um acidente de percurso, um erro de cálculo, um ato falho.e é justamente por saber disso que a gente continua tentando - e errando - porque ninguém tem culpa, ou mesmo que tenha, que diferença faz para o que já foi feito?desistir seria burrice, ou no mínimo, imaturidade, porque o que hoje é cicatriz, perfeição perdida, amanhã vira perfeição nova através de outros olhos e pode assim virar todo dia de novo.as vezes os momentos mais felizes que a gente vive são os mais insignificantes.os acontecimentos épicos não têm nem de longe o mesmo impacto que as banalidades na minha memória, então a importância das coisas não pode estar atrelada ao seu significado no panorama geral.parece bobagem,eu sei.mas é uma coisa que faz falta.a gente pode tentar se convencer do contrário, mas depois de um tempo percebe que por mais fútil que seja, é aprendendo a olhar direito pros detalhes onde a perfeição diária se esconde que a gente consegue manter o foco no resto das coisas que faz.
(ahã,me baixou o zé saramago hoje.)



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