Sobre namorados, sextas-feiras e uma romântica incondicional

Perto de onde eu trabalho,há uma escola.Isso pode significar sim, muita coisa.Mas principalmente, que é impossível chegar até a esquina sem encontrar um ou três adolescentes.
Via de regra eles têm mochila,espinhas, fazem chapinha e se aglomeram em círculos, formados por alguns meninos e apenas uma,no máximo duas meninas, que falam muito alto e gesticulam.Um frisson.
'Adolescentes odeiam.Odeiam a guria que comprou a calça igual.Odeiam o guri que anda de skate.Mas adolescentes também amam, despudoradamente.
Também há a conformação adolescente do tipo "dupla".Os namoradinhos são os protagonistas preferidos das minhas histórias...principalmente nos primeiros dias de junho, quando o inverno invade de vez o outono.
Namorados, por definição, esquecem-se do restante do mundo.Em Porto Alegre,mesmo com o buzinaço,o calorão, a massa apressada que corre contra o tempo, os namoradinhos não estão nem aí: trocam olhares,beijam-se, fazem cócegas, beijam-se,roçam seus corpinhos magros, beijam-se e simplesmente não consigo parar de observá-los de canto de olho.
Usam tênis, calça jeans e gírias.As gurias, argolão na orelha.Os guris,bermudão.Dividem um pastel de forno de presunto e queijo.Eu como o meu, sozinha.Eles, eles juram e beijam, beijam-se, beijam os dedos em cruz e a ponta do nariz.O primeiro amor, tão ingênuo quanto arrebatador,é o mais convincente(entre todos os que ainda virão) de que vai mesmo durar para sempre.
Adolescentes odeiam.Odeiam a guria que comprou a calça igual.Odeiam o guri que anda de skate.Mas adolescentes também amam, despudoradamente.Além dos exageros típicos da idade,adolescente não tem medo de ser pego pelo pai, de repetir de ano, de acidente de carro, de fazer tatuagem, de colocar piercing na língua, de pular de bungee jump,nem de outras tantas situações de alto risco, como se apaixonar.Eles simplesmente sucumbem e passam a língua entre os lábios do outro, dentro da orelha do outro, mordem o pescoço, ficam ofegantes ali mesmo, na frente de todo mundo, na rua, na minha frente e isso é tão bom!Mal sabem eles que, pelo resto da vida, vão querer repetir o que vivem agora: esse amor dos 16 anos - fogo e entrega.É quase como um desejo de ser jovem para sempre.
Se ainda não disse, é melhor dizer agora: a paixão acaba.Nesse dia, dói muito e dá uma sensação iminente de morte.A parte boa é que,antes de morrer mesmo, a paixão nem dói: ela arde.
Vejo que eu, como os adolescentes, não tenho medo.Escolho o esmalte com que pinto as unhas dos pés não pela cor, mas pelo nome: semana sim, semana também e semana de novo, peço à manicure, como quem reza para um santo milagreiro, o esmalte de nome "Paixão".Pra variar,"Carinho", "Fetiche", ou "Volúpia"(...e os bons tempos de Verônica).Mais adiante, gostaria de passar o "Amor" ou então o "Love".Aliás, se pudesse, moraria em Amor, uma cidade que fica lá em Portugal.
Acho mesmo que toda sexta-feira deveria ser da Paixão. Todas as frutas, como o maracujá, deveriam ser frutas da paixão - exceto as maçãs, que deveriam ser todas do amor.E todos os amores, perfeitos.E, mesmo depois dos 30,40,60, todos os namoros deveriam ser de adolescentes, como os da rua perto do meu trabalho.


Leave a Reply