Amanda / Zé / eu

Vou chamá-la de Amanda. Há um homem, sempre há. Vou chamá-lo de Zé, ainda que todos o sejam. Amandas sempre preocupam-se com Zés, por eles rezam, emagrecem, noivam, gastam tempo, dinheiro e sonhos com Zés. Sobretudo, choram por Zés. Amanda se descabela.

Zé não está muito interessado em assuntos mundanos / obrigações e horários / salário mínimo / paz na Terra / canastra real / previsão do tempo para o final de semana. Não sei ao certo sobre os objetivos de Zé. Por vezes, aparentam não terem a ver com Amanda.

Há pilhas de roupas dobradas sobre a cama estreita, coberta pelo lençol de linho. Amanda quer deitar e chorar litros, mas hoje é dia de passadeira. Empurra cinco ou seis meias soquete, camisetas velhas, calças, e faz de travesseiro as calcinhas de renda. Encosta-se na parede gelada e soluça abafado. Amanda tenta esconder, mas eu percebo que está chorando.

Em momentos como esse, seria bom ter alguém para abraçar: urso de pelúcia / garrafa de vodka / cartas não respondidas / as próprias costas - anything. Amanda agarra-se a caixa de lenços descartáveis. O quarto de Amanda lembra o de um hotel. Amanda vê o vazio / branco / a solidão / duas horas antes da morte: quatro paredes, chão de mármore, não há janelas ou portas, apenas nuvens de algodão. Vai chover nos delírios de Amanda.

Senhoras e garotos fazem caminhos escherianos, em passos coreografados. Usam macacões de astronauta, vestidos de noiva, chapéus-côco, jalecos de médico e nem é Ano Novo. A cada meia hora, olham para trás e conferem a posição de Amanda. Ela faz sinal de positivo com o polegar, 'estou bem, apesar de cada vez mais distante, pregada no chão. Está frio e ela está descalça.

Amanda dorme depois que virou o dia, em suaves prestações. Nos pesadelos, gelo seco. Quer gritar mas perde a voz.Leva um susto e chama pela mãe,que não a escuta.
Dentro da cabeça oca de Amanda, reprise de cenas. Pouca ação, com três ou quatro personagens. Ela é a mocinha massacrada. Morre no final - quem não? Zé é o galã. Zé gosta de samba / não usa relógio / não faz a barba / nem mata barata.

Amanda evita falar com pessoas / poodles / plantas / santos milagreiros / senhoras em ponto de ônibus. Amanda não está para conversa. Recusa ajuda para descer do barco / pagar as contas / carregar sacolas / entender o mundo lá fora. Amanda diz "não preciso disso". Os problemas de Amanda são maiores que os dos outros / maiores que o Pico Everest / do que uma jaca madura / a Arena do Grêmio. Amanda usa lente de aumento.

Amanda chora. Pede pelo amor de Deus. Não sabe de nada.

A vida seria melhor de fosse a dois / se viesse com porção extra de queijo / estivéssemos no Canadá / durasse menos / todos os dias fossem amanhã.
Eu já vim aqui uma vez / duas / semana passada / de metrô / com o Zé. Parece que essa será a última, mesmo depois de tantas vezes ter disparado o alarme falso.

Lágrimas escorrem pelo rosto alvo de Amanda. Ela pesca a última com a língua e engole. Amanda deita no chão, abre os braços e vira as palmas das mãos para baixo. Olha para o lado esquerdo.

Amanda quer se desintegrar / quer que tudo se exploda / bum / pular de bungee jump com fio de seda / tomar um copo de Molico com cicuta. Amanda não quer deixar rastros / filhos mijados /  corações partidos / tanque de roupa suja para lavar. Prefere se dada como desaparecida e figurar no jornal local , foto 3x4, dentes de leite.

Treze é o número da sorte de Amanda. Na décima terceira pílula goela abaixo, enfim, me vê pela primeira vez. Olhos quase fechados, ela me enxerga pela fresta. Assusta-se. À primeira vista, costumo ofuscar. Ela perde os sentidos, me dá a mão e vamos embora.


Leave a Reply