Engolindo.

Queria manter dessa forma. Faz de conta que ir ao homeopata é a mesma coisa que fazer análise. No consultório do Dr. Eudoro, às nove e meia da manhã, depois de dizer a minha idade, altura, os remédios que tomava (ou não) e as doenças que eu nunca vou saber se já acometeram a minha família, comecei então a ser questionada sobre as minhas maiores angústias e outras tantas intimidades que eu não estava de todo à vontade de revelar.

Cercado de diplomas - e também de coleções de carrinhos - por todos os lados, o Dr. Eudoro era um quarentão duradouro e firme. Anotou minhas confissões em uma folha A4 - frente e verso - e, a respeito das minhas queixas, focou no ponto preto dos meus olhos e disse:

- Você engole muito sapo?

E com a receita embaixo do braço, fui pra casa sob efeito daquela frase, catalogando em ordem alfabética cada sapo daquela semana. No calor do momento, determinada a me livrar da angústia, eu, que sempre fora grande fã do silêncio, resolvi não engolir mais nada, o que significava falar absolutamente tudo o que me tocava aos amigos, familiares, chefes, namorados, porteiros, sogras, motoristas de táxi e a quem mais se arriscasse a me acenar com um sapo. Em pouco tempo, fiz fama de transparente, depois de franca e sincera e logo mais de esquentada e estúpida. No trato amoroso, invariavelmente era a primeira a me declarar - o que é sempre e no mínimo, arriscado. Levei então alguns pés na bunda, entrei em muito mais brigas do que deveria e perdi alguns relacionamentos valiosos. E a angústia, meu amigo, desapareceu, ainda que por um preço alto.

Quando então anos depois eu voltei a sentir um desconforto entre as costelas, algo que meu corpo identificou de imediato, o Dr. Eudoro pulou das minhas lembranças mais remotas e sentou ao meu lado na mesa de jantar, bronzeado e com a pele firme, porque na memória as pessoas não envelhecem. Juntos reconstruímos a cena no consultório, os diplomas e os carrinhos, também a receita, e depois os sapos, os milhares de sapos que eu não engoli e que começaram a saltar entre o prato, o copo e a jarra de suco de limão. Dr. Eudoro faz perguntas inconvenientes sobre as minhas angústias, que respondo com os olhos fechados, até me dar conta de que não é mais o que não digo que me incomoda, mas o que não ouço.



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