Era uma vez na Burrocracia

Com toda essa história de protestos com e sem fundamento rolando pelo país, me foi inevitável levantar um questionamento que para mim, vai além de alguém reivindicando pelos seus direitos. Porque pelos direitos sim, todo mundo levanta cartazes e bandeiras. Mas quando se trata dos deveres, neguinho quer falar não. Me desculpem mas não, eu não consigo me solidarizar com a galera que sai na rua pra pedir por justiça e direitos, sem nem conhecer em quem votou na eleição passada. 

Quando alguém resolve seguir uma carreira, ter uma profissão, tem que estudar e passar por muitos exames comprobatórios que atestem a sua capacidade para desenvolver a função escolhida, certo? A mesma situação acontece quando o indivíduo resolve dirigir um veículo. Aulas práticas, teóricas, prova e exame médico e mais alguns meses, até que finalmente o aspirante possa ser considerado um condutor.

Entretanto, quando o assunto é escolher quem vai ser o responsável pela condução da vida de toda uma nação de pessoas durante os próximos quatro anos, até analfabetos e menores de dezoito anos são incentivados a fazê-lo.

Não votei nas últimas eleições. Acho um absurdo que o voto seja obrigatório num país que pretende ser uma democracia. É algo completamente contraditório. Fora isso, eu começo a me questionar, sinceramente, sobre a validade que tem uma democracia.

Numa democracia, a maioria escolhe seus representantes, através do voto. Mas no dia em que a voz do povo for a voz de Deus, acho que a entropia será toda consumada em frações de segundos, tamanha carga de burrice que essa voz exprimirá. E o Universo vai se encolher de vergonha. Não é porque a maioria decide algo que isso é pressuposto para crermos que a escolha dela foi melhor. Geralmente é o contrário, visto que a maior parte da população é inculta e não está nem aí para a situação política. Não passo a mão sobre a cabeça dessa maioria. Um dos argumentos usados por aqueles que creem que nosso povo é coitadinho é de que ele não tem acesso a informação, e portanto, permanece na ignorância, por imposição de sua condição social desvalida, contando apenas com a maligna TV Globo para lhes munir com dados que, na maioria das vezes, são parciais. Snif.

Eu acho que isso é um pouco de conversa para boi dormir.

A TVE e a TV Cultura possuem uma programação ótima, que quase ninguém assiste. Podem usar o contra-argumento de que a imagem da Globo é melhor, e por isso é mais sintonizada, mas isso também fica ruim de engolir. Hoje em dia, com o advento do digital, todas as emissoras tem recepção muito boa e, se não por isso, que tipo de pessoa fútil rejeita uma programação de conteúdo superior, ainda que com uma imagem não tão perfeita, por uma baboseira só por conta da nitidez com que ela é apresentada? As pessoas não procuram outras alternativas porque não querem, por preguiça, porque preferem embriagar-se com a novela para esquecer da vida. Opção há, o que não há é vontade mesmo. E eu conheço um monte de gente que tem TV por assinatura em casa e ainda assim, só assiste a Globo.

Enfim, a democracia as vezes faz com que o intelectualmente superior seja governado pela vontade da maioria burra. E o que é pior: não chega a ser totalmente culpa da maioria burra, porque ela é OBRIGADA a votar.

Enquanto o voto for obrigatório neste país, serei obrigada a desconsiderar qualquer possibilidade de melhora que não a proveniente do mais absoluto acaso. Se um menor de dezoito anos não é criminalmente imputável, ou seja, se nesse caso não é considerado totalmente ciente das coisas que faz, como é que esse mesmo tem o direito e o poder de decidir quem vai mandar nele, em você e em mim? Ou ele é ou não é consciente. As duas proposições se anulam se coexistirem. Apenas uma é válida e deve ser adotada. Mas isso infelizmente chega a me soar como piada.

De tal sorte que, para exercer direito ao voto, deveriam ser feitos testes, assim como fazem na admissão de qualquer outra responsabilidade tamanha, que ponha em risco a vida de terceiros. Sei lá eu que tipo de teste, mas talvez um de conhecimentos gerais já seria um bom começo. A mesma coisa tá valendo para os candidatos. Pelo amor do Cosmos, a Gretchen foi candidata!

Não gostaria de ver isso acontecer, mas acredito que se as coisas continuarem assim, daqui alguns anos estaremos pedindo pela volta da ditadura, uma vez que Estados que não tem soberania não exercem governo efetivo, pois o que impera é o desrespeito e o passo seguinte é a queda no caos. E só um punho muito forte é capaz de ordenar um caos instalado. Para mim, exemplo prático dessa aprovação - ainda que silenciosa - que começa a se instalar por um poder mais contundente é a concordância da população com as ações do exército na ordem de manutenção da segurança pública no RJ. Eu nunca passei por isso, mas já li alguma coisa. E dentro dessa alguma coisa, as opiniões mais divergentes, até mesmo o saudosismo.

"Aristocracia é um termo que deriva do grego "aristoi" - melhores, e "kratos" - poder, e significa literalmente, poder dos melhores, dos mais experientes, dos mais sábios. Daqueles que representam superioridade não só intelectual, mas principalmente, moral.

Aristóteles chegou a afirmar que a aristocracia é o poder  confiado aos melhores cidadãos, sem distinções de nascimento, classe social ou riquezas.

Para Platão, o termo aristocracia  se funda na virtude e na sabedoria. Caberia, portanto, aos sábios, aos melhores, dirigir o Estado no rumo do verdadeiro bem."

No atual andar da carroça, nem sequer vivemos em uma verdadeira democracia, mas sim numa plutocracia disfarçada. Embora possam me crucificar por isso, tão acostumados que todos estão ao temor à outras formas de governo que não aquelas em que o povo escolhe quem o governe, ainda que o faça mal e porcamente, defendo mais que a democracia a aristocracia. Obviamente que não a hereditária, mas a real, que segue fielmente a origem etimológica do termo.

Nem sempre (ou quase nunca) o ideal é o viável, e infelizmente, não imagino maneira melhor de chegar aos eleitos por meio de testes tanto de intelecto quanto psicológicos, sendo estes últimos usados para avaliação de perfil de personalidade e caráter. Me importo menos em ser governada por alguém que não escolhi, desde que tal indivíduo o faço direito e por direito, que sê-lo por criaturas com intelecto de pé de couve que pretensamente "colocamos" no poder. E para aplacar a sede dos idólatras da democracia, uma alternativa a meio termo ainda poderia ser adotada: a seleção de X números de indivíduos, pré-selecionados por via dos testes, e sua posterior apreciação por parte do público eleitor.

Fosse qual fosse a escolha, pelo menos não seria como a que fazemos hoje, onde ao invés de procurarmos pelo melhor, somos obrigados a garimpar o menos pior.


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